Um jornal chamado “O Bandeirante” ainda faz sentido?

Hoje nasce aqui em Santana de Parnaíba, um jornal para Santana de Parnaíba, para acompanhar a cidade de perto e falar da sua gente, da sua cultura, dos problemas e decisões que impactam a vida quem mora aqui. Porém, lançar um jornal chamado O Bandeirante nos dias de hoje exige uma explicação.

Durante décadas a palavra “bandeirante” foi repetida como sinônimo de coragem, desbravamento e fundação, e em nosso município essa imagem ocupa lugar ainda mais central na memória coletiva.

Ela está no nome das ruas, nos monumentos, nos discursos oficiais, nos livros escolares e na forma como nos acostumamos a contar nossa própria história. Afinal, Santana de Parnaíba é conhecida como o berço dos bandeirantes.

Mas nenhuma cidade deve ser prisioneira de sua história.

Hoje, é notório o conhecimento de que a história dos bandeirantes não é apenas aventura e pioneirismo, e que as expedições que ajudaram a expandir fronteiras do nosso país também estão intrinsecamente ligadas à violência contra povos indígenas, à escravização e ao apagamento de muitas vozes.

A história dos bandeirantes por muito tempo foi tratada como heroísmo, também precisa ser vista como parte de um passado duro, desigual e brutal.

Diante disso, a pergunta é inevitável: faz sentido dar a um jornal o nome de O Bandeirante?

Para nós a resposta é sim, mas não como uma cega homenagem ao fantasioso passado de glória de nosso município.

O Bandeirante não nasce para erguer mais um monumento aos bandeirantes, mas sim para fazer justamente o que muitos monumentos não fizeram: contextualizar, questionar e abrir espaço para outras leituras da nossa cidade. Carregar esse título histórico, vem acompanhado do dever de questionar o que ele significa e quais histórias ainda precisam ser contadas.

Não se trata de apagar a história, nem de repetir a versão confortável que transforma personagens complexos em heróis de reputação ilibada.

Entre apagar ou exaltar a memória dos bandeirantes, preferimos um terceiro caminho, revisitar. Afinal, revisitar a história dos bandeirantes é reconhecer a importância histórica de Santana de Parnaíba sem transformar sua memória em uma peça intocável.

É compreender que o passado não pertence apenas às estátuas, aos casarões, as ruas ou aos documentos oficiais. O passado também às feridas, às ausências, às tradições populares, e aos parnaibanos por escolha ou berço.

Por isso, o nome O Bandeirante sempre será tratado por nós como uma pergunta permanente, e não como uma resposta.

Quais bandeiras Santana de Parnaíba carrega hoje? A da memória ou do esquecimento? Da preservação ou do abandono? Da participação popular ou das decisões unilaterais de seus governantes? Afinal, não somos apenas uma cidade histórica para visitação, somos uma cidade viva, com problemas concretos e pessoas de verdade.

Portanto aqui afirmamos, um jornal local não deve existir apenas para registrar acontecimentos. Deve ajudar a cidade a conversar consigo mesma. Deve fiscalizar o poder público, valorizar a cultura, cobrar soluções e preservar a memória sem deixar de confrontá-la.

Se o bandeirante histórico carregava a marca da conquista, este jornal pretende carregar outra bandeira, a da informação pública, crítica e comprometida com o munícipe de Santana de Parnaíba.

É com essa disposição que começamos.

– Redação, O Bandeirante.

 

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